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Notas à Margem

Notas à Margem

29
Ago25

Relevantar Spartacus - 86, canção XXXV

zé onofre

               86, canção XXXV

 

025/08/29

 

 

Fui ouvir novas baladas

Nos locais para esse fim.

Fui ouvir novas baladas

Nos locais para esse fim.

Vim de lá sem ouvir nada

Vim de lá sem ouvir nada

Pois já ninguém canta assim

Pois já ninguém canta assim.

 

Dei-lhes uma das antigas,

Para se inspirarem na vida.

Dei-lhes uma das antigas,

Para se inspirarem na vida.

Seguiram suas cantigas

D’amores, ilusões perdidas.

Seguiram suas cantigas

D’amores, ilusões perdidas.

 

Fui à procura d’as ouvir

Em um outro qualquer local.

Fui à procura d’as ouvir

Em um outro qualquer local.

Nada de novo faz sentir

Que há algo que corre mal.

Nada de novo faz sentir

Que há algo que corre mal.

 

Falei-lhes dos baixos salários,

Desemprego e exploração.

Falei-lhes dos baixos salários,

Desemprego e exploração.

Que s’o tema for solidário

Torna mais bela a canção.

Que s’o tema for solidário

Torna mais bela a canção.

 

 

Meus amigos, quando for tarde,

Meus amigos, quando for tarde,

Não digais ninguém nos avisou,

Não digais ninguém nos avisou,

Então cantareis desolados

Então cantareis desolados

Que cegos seguimos

Que nada vimos.

Que cegos seguimos

Que nada vimos.

Que cegos seguimos

Que nada vimos.

       Zé Onofre

23
Ago25

Relevantar Spartakus - 84

zé onofre

               85

 

025/08/21

 

Este é o tempo, meus amigos,

De dizer o feito foi-se para sempre.

Este é o tempo de todos os perigos,

De continuarmos a marcha em frente.

 

Vontade posta num outro futuro,

Avancemos sem medo algum,

Por mais forte que seja o muro,

Não nos resistirá se formos um.

 

Alertemos meus amigos, insisto,

Que os vampiros neste instante

Sem terem o ar o negro e sinistro

Vêm com a mesma sede de sangue.

 

Mostremos com a força da razão,

“que não queremos o que eles querem”

Porque temos uma outra intenção,

Queremos a igualdade que eles temem.

 

Reforcemos com renovada esperança,

Que se todo o mundo muda, dia a dia,

Então que essa eterna mudança,

Seja no sentido da nossa via.

 

Cantemos, pois, com vozes bem altivas,

Não as canções que nos deixaram,

Compunhamos novas canções vivas,

E cantemo-las como as deles cantaram.

20
Ago25

Considerações sobre - 13

zé onofre

              13 – Sobre os …

 

2024/11/13 reedição em 2025/08/20

 

Incêndios - Doença ou Sintoma?

 

Agora que o céu se apresenta cinzento, apenas devido às nuvens e que as labaredas que se avistam nos altos das serras e dos montes são do sol nascente, ou do poente, escreverei serenamente sobre os fogos florestais.

Não sou especialista – arquiteto paisagista, engenheiro florestal, ou sequer técnico de combate aos incêndios. Apresento a minha opinião de cidadão que vê, ouve e lê e a partir daí tiro conclusões.

Para as fundamentar estudei o desenvolvimento da geografia humana e económica desta praia minúscula nas bordas da Península Ibérica.

  1. Um primeiro período que vai da autodeterminação do Condado Portucalense à crise dinástica de 1383/85.

O progresso assentou na procura do equilíbrio entre as várias actividades – rurais, artesanais e comerciais – quando o Comércio começou a sobrepor-se às outras atividades, os governantes tomaram medidas para harmonizar a produção com o comércio - «D. Afonso III iria determinar […] que os mercadores estrangeiros levassem igual valor de mercadorias nacionais ao das que traziam para vender no reino.» (in, História de Portugal Medievo, economia e sociedade, pág. 165, Maria Helena Ferro Tavares, Universidade Aberta, Lisboa, 1992).

Todo o progresso económico assentou na harmonização das várias atividades e por necessidade no desenvolvimento do ensino. D. Dinis, na agricultura - secar pântanos e plantar florestas de proteção dos solos contra o avanço das areias – pinhal de Leiria; criação de feiras por todo o país; criação da marinha de guerra para proteção da costa, e dos marítimos, das actividades corsárias. – No ensino criação dos Estudos gerais. D. Fernando - Lei das Sesmarias que obrigava ao cultivo dos terrenos incultos com a penalização destes serem expropriados; criação do seguro marítimo, obrigatório para naus superiores a uma determinada tonelagem – Companhia das naus;

Estas politicas fizeram com que neste período houvesse uma evolução harmónica da produção – agrícola, artesanal e comercial -  e ocupação equilibrada do território.

  • O segundo período inicia-se com o fim da crise dinástica – Vitória da Burguesia e dos segundos filhos da nobreza, até aos dias de hoje. É caracterizado por avanços e alguns recuos na supremacia do desenvolvimento económico assente no Comércio Marítimo – até aos dias de hoje.
    1. O novo poder – Dinastia de Avis e D. Nuno Álvares Pereira – originado na vitória sobre a velha nobreza – fiel à sucessão legítima de D. Fernando, D. Beatriz/D. João I de Castela - tem o seu suporte nas Elites Burguesas e dos Filhos Segundos da Nobreza. A luta dinástica/revolução burguesa destruiu as lavouras, as actividades artesanais. Muda de mãos os vínculos de propriedade e concentram-se ainda em menos e novas mãos -  Fernão Lopes, na crónica de D. João I, elabora a teoria da Sétima Idade: «na quall se levamtou um mundo novo, e nova geeraçom de gemtes; porque filhos dhomeẽs de tam baixa comdiçom que nom compre de dizer, per seu boom serviço e trabalho, neste tempo forom feitos cavalleiros, chamamdosse logo de novas linhageẽns e apellidos. Outros se apegarom aas amtiigas fidallguias, de que já nom era memória, de guisa que per dignidades e honrras e offiçios do rreino em que os este Senhor seemdo Meestre, e depois que foi Rei, pos, montarom tanto ao deamte, que seus decendentes oje em dia se chamam doões, e som theudos em gram comta. (CDJ, I, c. CLXIII)». O poder emergente teve que satisfazer a sua nova clientela e encontrou a solução fora das fronteiras - conquista de Praças Comerciais no norte de África.

Ao optarem por esta via, é verdade que resolveu de imediato a ambição das novas elites governantes, também iniciou um caminho de despovoamento, de estagnação da exploração e técnicas agrícola, cujos senhorios se tornaram cada vez mais ausentes, e atrasou a evolução do artesanato, com excepção das artes ligadas à marinhagem.

  1. A colonização das ilhas atlânticas, da exploração da Costa de África - o comércio do Ouro da Mina e de escravos – acelerou o despovoamento que se agudiza com a ligação da Europa com a Índia por via marítima, pela tentação das riquezas que vêm do Oriente até aos nossos portos com Lisboa à cabeça.

«Como eu vi correr pardaus/ por Cabeceiras de Basto, / crescerem cercas e o gasto, / vi, por caminhos tão maus, / tal trilho e tamanho rasto.

Logo os meus olhos ergui, / à casa antiga e à torre, / e disse comigo assi: / «Se Deus não nos val aqui, / perigoso imigo corre!»

Não me temo de Castela, / donde ainda guerra não soa; / mas temo-me de Lisboa, / que, ao cheiro desta canela, /o Reino nos despovoa.

E que algum embique e caia /(afora vá mau agouro!) / Falar por aquela praia / da grandeza de Cambaia/ Narsinga das torres d’ouro»

(carta 10 - a António Pereira sr. de Basto)

«Agora, por que vos conte / quanto vi, tudo é mudado; / quando me acolhi ao monte / por meus vizinhos defronte / vi lobos no povoado.»

(carta 11 – a seu irmão Mem de Sá)                  

[Sá de Miranda in – Textos literários Século XVI -, Maria Ema Tarracha Ferreira, Beatriz Mendes Paula, 2ª edição, Editorial Aster, Lisboa. Carta 10, pág. 352. Carta 11, pág.362]

 

Do Oriente vieram mercadorias valiosas que se acumularam nos armazéns do porto de Lisboa, onde permaneciam o tempo necessário para seguirem para a Flandres, de onde as naus que as levavam voltavam com o que não produzíamos para as trocas comerciais. O que sobejou foi gasto em obras de Prestígio e em embaixadas Luxuosas entre as quais a corte Papal.

  1. Com a queda do comércio com o Oriente, seria de esperar que    desenvolvessem a sua própria Terra. Não. Com o que sobrava do Oriente iniciam uma aventura no Atlântico Sul, que continuará e reforçará o despovoamento e atraso na produção interna. O Brasil tem fome de mão-de-obra e ferramentas, que Portugal não podia oferecer. O norte da Europa, numa fase pré-industrial, produzia os produtos industriais necessários e África a mão de obra, ainda por cima escrava.  Iniciou-se o comércio triangular entre o Brasil, África e a Flandres, intermediado pelos portugueses. O norte da Europa fornece tecidos e ferramentas, a costa de África escravos, o Brasil açúcar e os portugueses o transporte e na passagem por Lisboa deixam alguns trocos e levam mais colonos.
  2. Numa quarta fase, no tempo de D. Pedro II, tentou-se uma política de desenvolvimento industrial, principalmente no têxtil e consequentemente no desenvolvimento nas actividades produtivas a ela associadas o que permitiu fixar alguma população. Certamente estava a resultar porque os “velhos aliados” se sentiram atingidos para nos proporem um acordo comercial – o tratado de Methuen – cobravam uma taxa benéfica na compra dos nossos vinhos, e os portugueses abdicavam da produção de tecidos finos. Mais uma vez um atraso no desenvolvimento económico do País, e mais despovoamento.
  3. Também, no tempo de D. Pedro II, houve a descoberta das primeiras riquezas minerais na Colónia Sul-atlântica. Este facto conjugado com o tratado “dos vinhos e dos panos, começou a corrida aos minerais preciosos do Brasil. No clímax da exploração mineira parece que o ouro jorrava do solo, mais milhares de portugueses, aspirantes a milionários, embarcaram para o Brasil.

O “quinto do ouro” que a Coroa – D. João V - segue o caminho dos Países Baixos tal como as especiarias da Índia e o açúcar do Brasil. O que sobrou também foi gasto em obras e embaixadas sumptuosas, numa mentalidade novo-rica e de ostentação se desperdiça o desenvolvimento do Reino. Com o fim de “os quintos do Brasil”, Portugal está mais despovoado, sem agricultura -  exceptuando o vinho - sem artesanato e sem comércio marítimo digno de nota.

  1. Numa quinta fase aparece um génio entre a mediocridade desta Terriola a que se chama país. O 3º conde da Ericeira, o nosso génio, aposta no que verdadeiramente cria a riqueza das nações – produção agrícola, livre dos métodos medievo-senhoriais, artesanato que se pré-industrialize, pastorícia que produza matérias primas para os têxteis e aumente a produção de queijo, a exploração mineira que alimente uma futura indústria metalúrgica. Pretendeu que Portugal alimentasse o mercado interno, reduzindo a importação, e que os excedentes contrabalançassem as importações.

Tudo conjugado faria redistribuiria equilibradamente a população pelo Território. Pombal, continuaria esta política regulou o comércio com as colónias, protegeu o melhor da produção agrícola– o vinho do Alto Douro, encetou a reforma do ensino retirando o ensino universitário das mãos dos Jesuítas e da escolástica; proporcionou instrução à aristocracia, que a tornasse útil e a libertasse da mentalidade medieval que considerava desonra qualquer ofício.

Estas medidas criaram atritos não só com a aristocracia, mas também com o Clero que se sentiu atacado quer nas propriedades quer no domínio espiritual sobre as mentalidades.

  1. Estas reformas, pouco consolidadas, são atacadas pelos seus adversários que encontram eco na nova rainha D. Maria I.

É o tempo da viradeira, seguida dos movimentos revolucionários Liberais que abalam a Europa.

De um lado a França Revolucionária que, com Napoleão expandiu o Liberalismo; do outro os impérios britânico, alemão, austro-húngaro e russo. Portugal foi arrastado para este furacão pela fidelidade à sua velha “aliada”.

O alinhamento com a Inglaterra levou à invasão napoleónica, à fuga da Coroa para o Brasil e com ela um contingente enorme de portugueses.

A guerra trouxe os nossos velhos “amigos” que a troco da sua ajuda, necessária porque não lhes fechamos os portos, nos obrigam a abrir os portos brasileiros e transformou-nos num protectorado.

  1. Foi nesta situação, de uma nação despovoada e devastada pela guerra, sem estruturas económicas, militarmente ocupada que se deu a Revolução Liberal de 1820.

Rebentou a guerra civil entre liberais e absolutistas seguida de conflitos entre as facções liberais. É uma nação exaurida que depõe as armas e aceita a Regeneração.

Esperou-se que esta revolução, que fez uma reforma da propriedade que mudou mais uma vez de mãos, alterasse os métodos de exploração agrícola.

«D. Luiz […]. Fiel aos hábitos aristocráticos dos seus maiores.» (pág.13). «[…] Os jovens descendentes […] passavam o tempo cavalgando e caçando nas imediações,» (pág. 17) «Há nada mais triste do que aquelles campos invadidos pelas ortigas » (pág.26) «n’aquelles tempos, as classes privilegiadas podiam entregar-se sem receio a uma vida de incúria e de dissipação, porque os privilégios velavam por ellas e remediavam-lhes os desvarios.» (pág. 36).

[Os Fidalgos da Casa Mourisca, Júlio Dinis, Artes gráficas, Porto, sd].

  1. A regeneração trouxe para a política o sistema eleitoral assente no “caciquismo” - «É inevitável. Os dois primeiros traçados tinham certas durezas. O primeiro era uma luva lançada a uma influência eleitoral, poderosíssima: o brasileiro Seabra. […]. Estou adivinhando que meus filhos votariam por que antes se arrostasse com os despeitos desse influente.» (pág. 174) «E não haverá outro meio? […]. Acaso há só esses dois lugares para dirigir a estrada? […]. Havia um outro traçado, mas esse ia destruir completamente os campos do brejo. Então esse, esse! São bens nossos!» (pág. 175)

[A morgadinha dos canaviais, Júlio Dinis, Livraria Civilização, Porto, 1935]

Chegou, então ao governo Fontes Pereira de Melo que encontrou este país. - «Em Portugal a emigração não é, como em toda a parte, a trasbordação de uma população que sobra; mas a fuga de uma população que sofre. […] a miséria que que instiga a procurar em outras terras o pão que falta na nossa» (pág. 234). «Mas onde pode a plebe ganhar o pão? A grande indústria, a dos tabacos, dá 250 réis de salário a um operário com família. As indústrias fabris são poucas, periclitantes, com interrupções constantes de trabalho. A indústria mineira está abandonada à exploração de companhias estrangeiras. A agricultura vive de rotina – empobrecendo a terra e empobrecimento do homem. […] O trabalhador dos campos vive na miséria, come sardinhas e ervas do campo;» (pág. 236)

[Uma campanha alegre – Eça de Queirós, Livros do Brasil, Lisboa, sd].

O sr. Fontes Pereira de Melo observou a Inglaterra, a França, a Alemanha e os EUAN e o que lhe encheu os olhos foi uma coluna de fumo que se deslocava pelas pradarias - os comboios.

Concluiu que aqueles países eram prósperos, economicamente falando, devido à Linha Férrea e não percebeu que aquelas nações tinham vias férreas devido à prosperidade. E como inverteu a realidade trouxe, então, o Caminho de Ferro para Portugal.

Que é que havia em Portugal para escoar? A única mercadoria de valor era a população faminta, segundo Eça de Queirós. O comboio só lhe veio facilitar o meio de chegar mais rapidamente às cidades portuárias onde apanharia os navios para o Novo mundo – Brasil e EUAN.

Esta corrente emigratória apenas será interrompida pela primeira guerra.

  1. A República apenas acabou com a monarquia e com os velhos caturras aristocratas, de resto continuou com os velhos tiques do Liberalismo. Continuou o caciquismo, o absentismo dos proprietários rurais, uma indústria pouco desenvolvida e dependente da emigração. Piorou com a entrada na primeira Guerra Mundial que se substituiu ao Brasil no retirar os jovens rurais e operários da sua Casa.

Segue-se a Ditadura Militar e o Estado Novo que, ao que se vinha fazendo, acrescentou uma das indústrias mais poluentes que havia – a produção da pasta de papel – que exigiu uma enorme quantidade de fibra vegetal.

Por esse motivo descobriram, que as serras estavam abandonadas e improdutivas. A ordem era para florestar as serras em força e já, como se fosse uma guerra. E pelo que sabemos foi.

«A gente boa sumia-se na emigração. O que sobejava era o rebotalho. Pudera, tanto o lavradorzinho da arada como o cabaneiro viviam frigidos com tributos, com tributos mais escravos que os negros. […]. Os de Lisboa querem-na coberta de pinhal … […]. A serra era de nossos pais e avós, dos nossos rebanhos, dos lobos que no-los comiam, do vento galego que afiava lá pelos descampados as suas navalhas de barba. (pág.21). nos próximos dez a quinze anos, os moradores terão de andar com a cabra e a ovelha à corda, porque se caem em deixá-las fugir para o bastio, multa te valha. […]. Daqui a vinte anos termina a quarentena. É a vida de uma geração. […]. É o renovamento demográfico de uma localidade. […]. Este longo período equivale a sete vezes sete anos de vacas magras. (pág. 41). É a serra que dá o leite e a lã, pois que ali se apascenta o nosso vivo.» (pág.43)

  [. Quando os lobos uivam, Aquilino Ribeiro, Círculo de Leitores, 2010]

A urgência era florestar com plantas fibrosas e de crescimento rápido que se adaptassem às condições do solo. Que não ficasse um mm2 por aproveitar. Florestou-se com resinosas, sem planificação, sem cuidar de precauções contra incêndios e despovoamento. O progresso confundiu-se com rendimento económico imediato, apenas com os olhos fitos no máximo rendimento, o resto era apenas um obstáculo.

Um solo, aparentemente improdutivo, segurava a população que restava, alimentava o gado e o pouco solo arável, fornecia lenha, produzia leite e lã, que fazia funcionar os teares.

Estes factores de harmonia, entre geografia física e humana, foram desprezados e agudizaram a sua destruição. Mais umas centenas de pessoas desesperadas abandonaram o interior a caminho das areias atlânticas, sem intenção de regresso - “Adeus, ó terra/adeus linda serra/de neve a brilhar/Adeus, aldeia/ que eu levo na ideia/não mais cá voltar” [no filme Maria Papoila, dos anos 30/40].

Durante a segunda guerra a corrida ao volfrâmio fixou alguns serranos   nas aldeias. Com o seu fim e com o inicio de uma nova industrialização, embora lenta, instalada nas praias, faz de Portugal um escorrega inclinado para o mar.

A guerra colonial abriu novos horizontes aos jovens que se “recusaram” a regressar à pobreza ancestral e ficam pelas Lisboas e outros litorais ou então seguem, na sua maioria, para as franças, alemanhas e outros destinos europeus.

A escassez da mão de obra camponesa é notória. Os senhorios absentistas para evitarem que as suas terras sejam votadas à improdutividade, não modernizam, limitam-se a fazer contratos um pouco mais benéficos que, se agradam aos camponeses mais antigos, não seduzem de qualquer modo a juventude. E, conforme a população rural envelhece, os campos ficam abandonados.

Com a entrada na CEE – actual UE – os governantes venderam o pouco que restava da agricultura às políticas da PAC e convenceram os proprietários que os seus solos apenas são próprios para florestação. Muitos campos agrícolas começam a ser eucaliptizados.

Entretanto o manto florestal começa a atingir a sua saturação. É um volume de matéria altamente inflamável sem cuidados, abandonada aos desígnios do tempo.

 Quando as primeiras matas começaram a arder ao longo da Linha do Vouga a culpa foi do comboio que faz chispas nos carris e semeia faúlhas ao vento. A linha do Vouga é condenada, porém os incêndios continuaram e aumentaram de ano para ano.

Novos culpados são procurados, os incendiários, os interesses económicos, as condições climatéricas. Estudam-se modos de combater os incêndios. Intensificam-se os meios terrestres, inova-se com meios aéreos, o certo é que nada trava as chamas entre a primavera e o outono.

Fazem-se estudos, mil planos, todos eles com os seus méritos, mas sempre com a tónica no combate e não na prevenção e mesmo quando são preventivos não colocam o dedo na verdadeira ferida.

Resumindo

  • No primeiro momento, da Independência do Condado Portucalense à crise dinástica de 1383/85, o progresso económico do jovem país assentou num desenvolvimento harmónico da produção - agrícola, pastoril, artesanal, mineira – de modo que sustentasse o comércio marítimo com o exterior, não criando desequilíbrios e promovendo um povoamento e desenvolvimento harmonioso do território e das actividades económicas que levam à necessidade de apostar na instrução e à criação dos Estudos Gerais.
  • No segundo momento, depois da Crise dinástica de 1383-1385, o progresso económico assenta na vertente externa de conquista e das viagens marítimas e no comércio com novos povos encontrados e na colonização de terras despovoadas ou escassamente povoada, por povos considerados inferiores.

O litoral e as riquezas de além-mar atraíram a população que tanta falta fizeram para um povoamento equilibrado do Território.

A aposta em empresas falsamente progressistas, que apenas almejavam o enriquecimento imediato, uma industrialização localizada numa faixa de pouco mais de cinquenta quilómetros do mar, muitas vezes assentes em premissas falsas que levaram a fazer do interior uma gigantesca tocha.

Tudo isto empurrou a população para o mar e para além-fronteiras.

Em conclusão

Os fogos florestais não são uma doença – muito menos uma fatalidade – são o sintoma de um país cronicamente doente que sofre da macrocefalia do litoral, desde a dinastia de Avis.

A solução não será, portanto, combater os sintomas, mas combater a doença.

Esse combate passa pela inversão do que até agora se tem feito e se considerou “progresso económico”, para uma política que valorize todo o Território e o bem-estar de toda a População

   Zé Onofre

17
Ago25

Relevantar Spartacus - 84

zé onofre

                  84

 

025/08/17

 

Povo, com as tuas mãos mágicas,

Tudo fazes nascer sem milagre.

Com cânticos do teu sangue regas a terra,

E nasce o pão nosso de cada dia;

Em velhas fábricas fumarentas,

Percutes em sinfonia Orff,

O ferro com velhos martelos;

Em auditórios de luz clara,

Em gabinetes esterilizados,

Reges chips e robôs

Em música eletrónica.

Em todos esses locais operas

O milagre da criação.

Das tuas mágicas mãos

Nasce o útil e o inútil,

O necessário e o descartável,

Tudo que transborda do bolso do patrão,

Que não chega para a tua vida, não.

   Zé Onofre

06
Ago25

Dias de hoje 2025, 13

zé onofre

                13

 

025/08/06

 

Foi há dias.

Deitado numa pedra,

No Largo,

A fitar o nada,

Esperando alguém.

Enquanto os minutos se sucediam,

A mente foi-se esvaziando do presente.

O corpo preencheu-se 

De sensações passadas.

 

Ao longe,

Não sei quanto longe,

Ouvia,

Era o entardecer,

Chiar carros de bois.

 

Também longe,

De certeza mais próximo,

Cães desassossegados

Ladravam ao desafio

Chamando a Lua que tardava.

 

Mais próximo,

Mesmo ali no Largo,

Crianças e passarada

Envolviam-se,

Em alegre despique,

De bater de asas, canto e algaraviada,

Dizendo adeus ao Sol

Que lentamente se afundava para os lados do mar.

 

O tempo venceu-me,

Não sei se por segundos,

Por horas,

Ou alguns minutos.

Apenas sei que foi longo o apagão.

 

Abrindo os olhos vi,

Parados como estátuas, uns,

Outros, em andamento lento,

Olhando-me como se fosse um estranho

Num tempo a despropósito.

 

Quem seria eu,

Aquele vulto ali abandonado?

O Zé Maneta,

A curar a carraspana sua de cada dia?

O Pirata,

Que resolvera fazer a travessia a sós

E desamparado caíra a meio caminho da casa e da tasca?

O Gaspar,

Rasteirado pelo comparsa

Que carregava às costas?

 

Lentamente

O mundo, que abismado me observava,

Dissolveu-se no nada

E apenas uma voz amiga

- Pensava que já não vinhas.

 

 

 

 

 

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