Dia de hoje - 109
109
024/10/28
Andei longo tempo ausente
Perdido não sei por onde,
Se foi no meio da gente,
Ou por caminhos desconhecidos,
Entre as brumas do deixa p’ra lá,
Já nada vale a pena
Nada adianta estar presente.
Vivemos sob um manto
Absurdamente pesado e cinzento
Que machuca,
Que ensurdece o pranto,
Que escurece o futuro
E apenas deixa passar
Os ecos passados.
Vêem-se,
Lêem-se
E ouvem-se
Os mesmos sons lamurientos,
Os mesmos inúteis apelos,
Os mesmos ingénuos desejos,
Dos impotentes.
E nós
Amansados
Quedamo-nos nas margens
A ver o rio de sangue dos inocentes,
Cujo caudal aumenta
De dia para dia,
De ano para ano,
A que ninguém põe fim.
Os que querem não podem,
Por falta de respeito
Ou da coragem que não vem.
Sob este manto cinzento
Que concentra o fedor a pólvora
E da carniça
Respeito têm-no
Apenas os fortes
Criado na ponta da bala,
Na ponta do míssil,
Na ponta da falsidade.
Sob este manto cinzento
Opaco,
Surdo,
Enlouquecedor
Andei um longo tempo ausente,
Perdido não sei por onde.
Agora
Duvido que esteja presente
Ou se apenas
Ou se de mim há apenas um reflexo
Inconsciente.
Zé Onofre
