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Notas à Margem

Notas à Margem

08
Mai25

Das eras - parte V 2º vol 2

zé onofre

               2

 

025/05/07

 

Liberdade Livre, Teresa Margarete Martins Pereira, no blog https://madrugada.blogs.sapo.pt/

 

Foi breve a madrugada,

Foi uma faísca no horizonte dos medos,

Que os medos

Se encarregaram de abafar.

 

Uma madrugada

Ingénua nascida,

De portas abertas,

Sem desconfianças,

Doce e carinhosa,

Irisada pelo sol

Nascente,

Que viajava pelas pérolas

Do orvalho.

 

Ingénua madrugada

Que aceitou todos

Como seus verdadeiros amantes,

Amigos e adoradores,

Mesmo aqueles,

Que ainda na véspera,

A mantinham prisioneira

Nos calabouços

De um longo inverno de quarenta e oito anos.

   Zé Onofre

22
Abr25

Relevantar Spartakus - 81 -

zé onofre

Comunicado – 12             

Cravo.jpg

         

            1991/04/25                                                            1998/06/15

Há longos dezassete anos havia                              Emergimos.                                                       

Silêncio horrível, como pesadelos,                         De repente sentimos

Nas ruas. Ao amanhecer de um dia                        Os cabelos. a esvoaçar.

Calou-se e refugiou-se nos quelhos.                      Sentimos

                                                                                       Uma irreprimível vontade

Mansamente, como quem cria                               De abrir os braços                           

Ilusões em sonhos já velhos,                                 Tocar noutros braços

A gente incrédula via                                             E de corpo com corpo voar.

O medo abrir em cravos vermelhos.                      Vimos

                                                                                    Abruptamente irromper

Hoje que desse dia lindo                                        Com espanto,                                

Só nos resta saudade, tristeza,                                De quem acorda das sombras,

Religiosamente, vamos cumprindo                        A luz, a cor o bulício

                                                                                      De mil outros corpos,

Rituais simples ao entardecer,                                Que de cinzentos,

Com a melancolia que dá a incerteza                     Despercebíamos ao nosso lado.

Se abril se fez, ou se ficou por fazer.                      Foi assim.

      Cinquenta e um anos depois aproximamo-nos rapidamente do dia 24 de abril de 1974.

      Não vale a pena procurar culpados, a quem apontar o dedo. Todos somos responsáveis.

      Nós que dizíamos - «25 de Abril sempre, Fascismo nunca mais» - pensávamos que bastava, a cada ano que passava, festejar com canções e descer as avenidas das cidades. Nas aldeias com foguetes, pinturas e desenhos e provas de atletismo. Finalmente, nas aldeias, até isso desistimos de fazer.

Como andamos enganados. «25 de abril sempre», é resistir sempre. O Salazarismo/ Marcelismo estava afastado do poder, porém, as suas raízes mantiveram-se intactas. A raiz do Fascismo é o Capitalismo, que, ora se mascara de Democracia Liberal, e parece o Paraíso na Terra, ora assume a sua face mais «Vampiro» e começa a cortar, a destruir os direitos que os trabalhadores lhe conquistou. Inicia a Liberalizar = Privatizar a Saúde, a Segurança Social (reformas, subsídios de desemprego) com a desculpa que não há «dinheiro»

Entretanto os trabalhadores verificam que os seus salários reais baixarem e que empobrecem trabalhando. Quando necessário sentem-se obrigados a salvar bancos, cujos accionistas levaram à ruína. No fim os ricos a ficam cada vez mais ricos e os trabalhadores mais pobres.

Por isso, hoje, comemorar o 25 de Abril, não é recordar aquele de 1974. Comemorar o 25 de Abril, hoje, é começar a romper o cerco que de novo nos aprisiona.

 

25 de Abril.  Resistência sempre! Acomodação nunca mais!

03
Dez24

Dia de hoje IV 2024 - 20

zé onofre

20 – Morrendo

 

024/12/01

 

Mais uma tristeza,

Mais uma folha descolorida

Perdi neste outono.

 

A mais antiga árvore,

Que com amor semeamos,

– Gruta-CCL chamada – 

Já quase cinquentenária,

Num chão de pouco lavrado,

Está a morrer.

 

Morte lenta,

Doença crónica,

Devoradora do sonho.

Seiva que envelhece

Mesmo nas raízes

Que o primeiro alento lhe deu.

 

Foi,

E é ainda,

Pensava eu,

Uma árvore generosa,

Que gratuitamente dava frutos

Alimentados com alegria,

Embora embranquecida,

Do velho húmus

–Sonhos de futuro.

 

Pura ilusão

Ilusão de quem se ilude,

De quem não quer ver

O que à sua volta se ia passando,

 

 

Que anunciava o ia acontecer.

 

Aceito o cansaço,

De quase cinquenta anos

Remando contra a maré.

A suster esta árvore

No deserto que se tornou

O solo em abril lavrado.

 

Aceito que esmoreça a alegria

Que desmaie o sonho,

Que a vontade de lutar esteja exaurida.

Agora que esta folha caia,

Porque não se sente valorizado,

Valorização que nunca foi regateada

À sua entrega,

Ao seu mérito.

 

Que foque essa “valorização”

Na morte “do ser amador de uma causa”,

Para ser mais um profissional,

É triste, muito triste.

 

Apesar do desgosto

De mais um pouco de mim que se vai

E do sonho que mais um pouco que mingua,

Do sonho que já minguado está,

Resistirei,

Não sei “se ainda e sempre”

À mercantilização

Do amador.

    Zé Onofre

10
Mai24

Das Eras - Parte V - 36

zé onofre

              36

 

024/05/10

 

Três boas fadas

Te fadaram ao nascer.

Democratizar.

Descolonizar.

Desenvolver.

 

As lágrimas grossas da alegria

Esconderam os velhos senhores

Das antigas matanças.

Conseguiram destruir 

Todas as esperanças

Do mundo novo por vir.

 

Abril, as fadas que te fadaram

Foram pouco felizes no fadar.

Os dons eram puros e verdadeiros,

Mas a seu jeito, cada um os manipulou,

Que trouxeram a terreiro

Quem, ao nascer, te malfadou.

 

Ai Abril, abril, 

De lágrimas é o teu caminho.

De ódio, por quem não te desejou.

De pura alegria e nobreza  

De quem mais alto voo te futurou,

E que agora são de dor e tristeza.

   Zé Onofre

29
Abr24

Das Eras parte V - 35

zé onofre

              35

 

Abril 24 – 6

 

024/4/29

 

A flor que levamos na nossa mão

É cor do sangue que do peito cai.

Cor da bandeia da revolução

Que pela Terra no vento se vai.

  

Cravos vermelhos que tendes a cor,

Que das nossas veias a conservais,

Não sois uma qualquer nascida flor

Sois sangue derramado em cristais.

 

Povo que na mão alto os ergueis,

Mostrai-os com bravura e calor

Para que com alegria lembreis

 

Do mês d’abril o seu dia maior.

E assim as sementes semeeis

Dum futuro que queremos melhor.

   Zé Onofre

23
Abr24

Das eras parte V - 34

zé onofre

               34

Abril 024 - 5

 

024/04/23

 

Ainda é possível sonhar,

Ainda é possível crer.

Ainda é possível embarcar

Numa nova luta para vencer.

 

É Abril, outra vez revivido

Repetir, na monótona rua,

Palavras, gestos sem sentido

Ou mostrar a verdade crua?

Desfilemos, com raiva, a clamar,

Ainda é possível sonhar.

 

Abril. Um Abril a fazer de novo,

Ou uma romagem de saudade

À campa onde jaz desiludido o Povo,

Com quem lhe prometeu a igualdade?

Desfilemos, com raiva, a dizer,

Ainda é possível vencer?

 

Abril. O que irá nas ruas desfilar,

E que nas rádios e tevês vem passando,  

Será mesmo o Abril vivo a marchar,

Ou coro de carpideiras chorando-o?

Desfilemos, com raiva, a clamar,

Ainda é possível embarcar.

 

Abril, nas ruas de novo sentido,

Ou saudade dum sonho machucado

De tão maltratado já envelhecido,

Que por hábito marcha resignado?

Marchemos decididos sem esmorecer

Numa nova luta para vencer.

   Zé Onofre

05
Abr24

Das Eras Parte VI - 31

zé onofre

31

 

               Abril 024 – 2

 

024/04/04

 

Era uma vez …

Há muito,

Muito tempo

Num país perto de nós.

 

Nesse país,

Perdido lá atrás no tempo,

Havia um jardim secreto

Onde floresciam as flores mais belas

Que primavera alguma vez já vira.

 

Nesse país,

Perdido lá atrás no tempo,

O jardim secreto

Amanheceu

No alto de uma madrugada.

As pessoas, há muito dele ansioso,

Saíram à rua saudando-o

Com cânticos e palavras de alegria,

Onde cada flor serena falava

Igualdade, Liberdade.

 

Ao longo do tempo,

Desde esse há muito tempo

Em que o Jardim Secreto

Amanheceu

No alto de uma madrugada,

Os que queriam aquele jardim secreto,

Secaram uma a uma as suas flores.

 

Dessa manhã,

Que irrompeu no alto da madrugada,

Resta maioritariamente

Uma memória festiva.

 

A sua essência

Tem vindo a recolher-se

A um novo jardim

Que um novo dia

O fará florir

No alto de uma outra madrugada.

  Zé Onofre

01
Abr24

Das Eras Parte VI - 30

zé onofre

 

30  Abril 024

 

024/04/01

 

Há já muito

Que não subia esta encosta.

De penedo em raiz,

De raiz em esforço,

Me levava ao cume deste Monte.

 

Hoje fiz o velho caminho

Com mais esforço.

O tempo roeu os penedos,

Envelheceu as raízes,

Mas consegui

E aqui estou no cume do monte.

 

Sento-me,

Respiro fundo,

Fecho os sentidos por um momento,

Estou só

Encerrado em mim.

 

Após uma eternidade

Abro-me ao vento,

Ao céu,

Ao verde do monte,

Ao longínquo horizonte.

 

Olho em redor.

Apenas um cinzento pesado,

Sombrio quase negro.

Procuro no véu do horizonte

Um rasgão

Por onde veja um pouco

De uma manhã clara.

 

Lentamente rodo.

Procuro no negro longe

O azul que não aparece

E que tanto desejo.

Desistente, vou deitar os olhos ao chão,

Quando no mais afastado monte

Uma pequena brecha se rasga

E um tímido raio de sol,

Mostra o clarear

De uma nova madrugada.

 

Deito os ouvidos ao vento

Que já não sopra

Segredos

Lá dos confins de onde vem.

Vem carregado

De lâminas afiadas

Que cortam e castigam os ouvidos

Quem ousa,

Depois de tanto esquecimento,

Colher palavras semeadas

Por bocas desesperadas.

 

Apenas um silvo

Se faz ouvir.

Um grito único

De mil vozes tão cansadas

De tanto pedir socorro

No vento que corre pela Terra.

Mil vozes tão desesperadas

De tanto esperar o calor de uma canção,

A carícia de uma palavra de esperança,

Um canto que anuncie um novo amanhecer.

 

Um uivo de desespero,

Em seu último alento,

Lançado ao vento

Que os meus ouvidos fere,

Ou uma voz urgente,

Que nos grita,

Ainda estamos vivos,

Vamos em frente,

Que ninguém ouse desistir,

Que ninguém desespere

Uma nova madrugada está para florir.

  Zé Onofre

 

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