IV
A guerra na Ucrânia … Opinião do Professor José Viriato Soromenho-Marques …
( Licenciou-se em Filosofia, em 1979, pela Universidade de Lisboa, tendo obtido de seguida o grau de mestre em Filosofia Contemporânea pela Universidade Nova de Lisboa e o grau de doutor, em 1991, em Filosofia, pela Universidade de Lisboa com tese com título "Razão e progresso na filosofia de Kant".
Atualmente é professor catedrático na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, sendo regente das cadeiras de Filosofia Social e Política e de História das Ideias na Europa Contemporânea. Coordena o mestrado em Filosofia da Natureza e do Ambiente.
Desde 2022, é sócio efetivo da Classe de Letras da Academia das Ciências de Lisboa (7.ª Secção - Ciências Sociais e Políticas).[1]
In José Viriato Soromenho-Marques – Wikipédia, a enciclopédia livre (wikipedia.org) )
… em entrevista a Márcia Rodrigues no programa “Janela Global, RTP 3, no dia 4 de setembro de 2025
«[… (Márcia Rodrigues)]. Na questão da EU, eu penso que nós temos aqui uma questão de competência, a incompetência, ou seja, a Comissão Europeia tem mostrado a sua incompetência e nos últimos quatro anos, e eu acho profundamente lamentável que Úrsula von der Leyen tenha sido reeleita depois de ter tentado um, no fundo o modo como a União Europeia, antes da Guerra da Ucrânia não participou, enquanto EU, num processo diplomático com a Rússia, não é, como se a Rússia não fosse europeia […] claro, claro, Quando digo incompetência, quero dizer, fazer política é em primeiro lugar respeitar a realidade e nós estamos cheios na Europa de líderes nacionais e europeus que parecem que vivem num mundo de fantasia,
[… Europa enquanto UE]
Eu tento dar uma resposta que tenha algum conteúdo. Eu acho que temos aqui uma situação que parece paradoxal. Porque, por um lado os EUA, que foram o grande arquiteto do processo que conduziu ao longo de décadas a esta guerra na Ucrânia, ou seja, ao alargamento da NATO e sobretudo a partir de 2008 quando ficou muito claro que a presença da Ucrânia na NATO era inaceitável para os russos. Os EUA, dizia eu, através de Trump, ou seja […] E o próprio Trump que foi ele que em 2019 armou fortemente a Ucrânia, é como se fosse uma coisa completamente […] Como coisa completamente, se não tivesse nada a ver. E a EU que foi totalmente empurrada*para este processo que A invasão russa … foi no dia 24/FEV/2022 e as sanções foram automaticamente despoletadas, já estavam preparadas, eram sanções que já estavam preparadas e não foram preparadas em Bruxelas. Quer dizer os EUA […]. Seguiram as instruções obedientemente e neste momento ficou numa situação patética, mas é patética, que já não tem nenhum objetivo a não ser, eventualmente através de um acidente, através de um erro resvalar para uma situação de escalada […]
O problema é o seguinte. É que enquanto houve uma renovação, através do processo eleitoral democrático nos EUA nós, na Europa, continuamos com os líderes que mantiveram a guerra. O Macron em França, a comissão europeia, von der Leyen, e outros membros da comissão europeia, Keil Starmer que vem na linha dos anteriores primeiros-ministros britânicos, que são efetivamente, … eu julgo que eles estão psicologicamente ligados à continuação da guerra, apesar de não terem uma base, o Starmer há pouco tempo numa análise de opinião, inquérito de opinião, dava-lhe menos de 20% de simpatia, contra 60% que estava contra ele. Eu penso que há aqui uma incapacidade de enfrentar a realidade. Quando a guerra começou, estou à vontade porque escrevi isso, o que poderia acontecer eram duas coisas, uma guerra entre, uma proxy war, no fundo o campo de batalha era a Ucrânia, os EUA e a Rússia e a NATO, também a Nato.
O que poderia acontecer. Uma de duas coisas seria uma vitória convencional da Rússia que é o que está a acontecer, uma vitória convencional da Rússia, para os objetivos limitados que a Rússia teve, porque não é ocupar a Ucrânia, como a propaganda dizia. Não é, nunca foi, não se invade um país com 190 mil homens, um país com 600 mil Km2, com mais de 40 milhões de habitantes com 190 mil homens […]
Há dois cenários mais tarde ou mais cedo de que o que está acontecer agora, vitória convencional da Rússia, ou então resvalar para uma guerra nuclear, uma guerra global. Evidentemente que qualquer estadista, se houver estadistas, percebe, não é sequer. Eu digo o seguinte o problema é que uma falta de visão dos estadistas começou muito antes. Porque esta guerra poderia ter sido evitada em 2014 em [os mesmos EUA, não quiseram] os europeus nada fizeram tudo por [também é verdade que não armaram a Ucrânia como um verdadeiro aliado arma, porque ao tempo apercebeu-se que tinha o tal receio de uma deflagração [nuclear]. O povo ucraniano é vítima de todo este processo. E neste momento estão a morrer milhares de soldados ucranianos, também justamente pela falta de coragem do lado europeu de assumirem que efetivamente foram cometidos erros [a Europa] tem uma maneira. Vou dar-lhe um exemplo como pode fazê-lo. Os alemães têm um míssil [Taurus] um míssil competente para os seus objetivos poderia fazer como fizeram os franceses, os ingleses e agora os americanos, como se viu agora num artigo do New York Times, dirigiram as operações de bombardeio com armas ocidentais, eles podem. O problema central é que Friedrich [Merz] vai ter que explicar aos alemães se de repente um míssil Oresnik atingir Ramstein, junto da base da Nato, ou alemã. No fundo, nós estamos numa situação em que é preciso racionalidade, de um bocadinho de naturalidade é isso que falta […] isso falta […] .
O simples facto que para mim, que venho do tempo da guerra fria e que escrevi sobre a guerra fria, na altura da guerra fria, de repente ver um conjunto de primeiros-ministros que não fazem a mínima ideia do que é uma guerra nuclear, nem sabem o incêndio que podem provocar, causa-me estupefacção […]
É um paradoxo, por um lado esta guerra começou, não por causas geoestratégicas, mas porque há um diabo no Kremlin, uma figura diabólica e depois ao mesmo tempo pomos toda a nossa esperança em que essa figura diabólica aja de forma absolutamente cândida e racional, quer dizer alguma coisa está mal [… um jogo] completamente arriscado […]
Que capacidade há de armar e reindustrializar a Europa gastar [milhões] 800.000.000.000.000,00 […]. Os cidadãos não vão tolerar um investimento na defesa, quando provavelmente vão ficar numa situação mais frágil mesmo sem digamos a situação das ondas de choque que vão atingir a economia da UE, devido a este novo quadro comercial proposto por Trump, mesmo sem isso, o plano de rearmamento era totalmente irracional porque isso iria obrigar a quê, era obrigar a cortarem a nível europeu, os orçamentos nacionais, o orçamento europeu, na despesa social, aliás a despesa social é toda nacional, nas políticas da modernização da economia, no combate à crise ambiental e climática, nem sequer me parece correto falar num grande desígnio, o armamento, a corrida ao armamento, não é um grande desígnio, a não ser para quem produz os armamentos, […]
A UE neste momento em que nos encontramos perdeu não só o prestígio, mas ela perdeu também um bocadinho da sua alma, ou seja, perdeu os objetivos centrais. Eu lembro-me ainda e participei ainda num processo […] O bloco da Paz, em qualquer conferência internacional quem representasse a UE era respeitado como um Ocidente não agressivo, cooperante […] e mais é campeão das alterações climáticas […] tudo isso mudou e nós temos aqui como europeus, como portugueses e europeus temos de ter capacidade de olhar no espelho e vermos onde erramos, agradecer o facto de até agora não ter acontecido nenhuma tragédia, mas não acreditamos que tal aconteça.»
Obrigado ao Soromenho-Marques por esta visão tão contraria aos belicistas,
Zé Onofre