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Notas à Margem

Notas à Margem

06
Ago25

Dias de hoje 2025, 13

zé onofre

                13

 

025/08/06

 

Foi há dias.

Deitado numa pedra,

No Largo,

A fitar o nada,

Esperando alguém.

Enquanto os minutos se sucediam,

A mente foi-se esvaziando do presente.

O corpo preencheu-se 

De sensações passadas.

 

Ao longe,

Não sei quanto longe,

Ouvia,

Era o entardecer,

Chiar carros de bois.

 

Também longe,

De certeza mais próximo,

Cães desassossegados

Ladravam ao desafio

Chamando a Lua que tardava.

 

Mais próximo,

Mesmo ali no Largo,

Crianças e passarada

Envolviam-se,

Em alegre despique,

De bater de asas, canto e algaraviada,

Dizendo adeus ao Sol

Que lentamente se afundava para os lados do mar.

 

O tempo venceu-me,

Não sei se por segundos,

Por horas,

Ou alguns minutos.

Apenas sei que foi longo o apagão.

 

Abrindo os olhos vi,

Parados como estátuas, uns,

Outros, em andamento lento,

Olhando-me como se fosse um estranho

Num tempo a despropósito.

 

Quem seria eu,

Aquele vulto ali abandonado?

O Zé Maneta,

A curar a carraspana sua de cada dia?

O Pirata,

Que resolvera fazer a travessia a sós

E desamparado caíra a meio caminho da casa e da tasca?

O Gaspar,

Rasteirado pelo comparsa

Que carregava às costas?

 

Lentamente

O mundo, que abismado me observava,

Dissolveu-se no nada

E apenas uma voz amiga

- Pensava que já não vinhas.

 

 

 

 

 

20
Dez23

Dias de hoje - 90

zé onofre

              90

 

023/12/20

 

No tempo em que o tempo parava

 

Naquele tempo,

Antes de este tempo

Que em tudo que toca macula

Que das mais pequenas coisas

Faz objeto de consumo,

O Natal

Não era uma data no calendário,

Uma palavra no dicionário,

Era o tempo

Do mistério e da alegria,

Do sonho e da magia.

 

Do Natal desse tempo

Não há um momento especial,

Todos os momentos eram

Por inteiro o Natal.

 

Começava no fim das aulas em dezembro,

Com a criançada desafinada,

Pela estrada até casa

A cantar entusiasmada

 

– «Aulas acabadas

Férias começadas

Vamos para casa

Comer rabanadas».

 

Continuava-se com o presépio,

Na Igreja e em casa,

Na cozinha à volta da mãe

A provar as lambarices.

 

A noite de vinte e quatro

Com o bacalhau e a doçaria

(Com filhós e bolos de abóbora

rabanadas e aletria).

No Largo da Igreja

Com brincadeiras mil

Até à missa do Galo,

Com o “nosso” presépio a presidir.

 

Ao outro dia a festa continuava.

Ensaiar as janeiras. Canto tradicional,

Já não à avó, mas que continuava

Ao tio mais velho da Casa do Espinhal.

  

Era uma semana cheia de alegria,

O pai e os filhos, vê-los era um regalo.

E como sempre o pai contava

“uma vez deram um arroz de galo”,

E logo de seguida, com ar maroto,

“Não, galo de arroz”, emendava.

  

 Acabava o Natal,

No primeiro dia de janeiro,

Alta madrugada

Já o galo cantava no poleiro.

 

Votaria daí a uma eternidade,

(Caído logo no esquecimento)

No último dia de aulas

Do próximo dezembro.

  Zé Onofre

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