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Notas à Margem

Notas à Margem

17
Dez25

Dias de hoje, 25

zé onofre

               25

025/12/17

Estamos em dezembro.

Diz-me o cinzento dos dias,

A poalha húmida do ar,

Os dias curtos ao entardecer,

E, se mais não fora,

Dir-mo-ia o frio calendário do tempo por medida.

 

Apesar de ser um dezembro igual

A tantos outros passados,

Passo por este dezembro,

Como se já tivesse passado,

Encontro-me perdido num tempo incerto.

 

Há acontecimentos acontecidos,

Que parece que ainda estão por acontecer,

Há datas por vir

Que parecem já ter ido

Em velocidade louca para fora do tempo.

 

Tenho que me chamar à razão,

Fazer um enorme esforço mental

E convencer-me que não,

Ainda não foi Natal,

Contudo tenho a sensação

Que o Natal deste ano já tenha sido

Ou que por alguma gruta dourada

Anda perdido.

  Zé Onofre

29
Nov25

Dias de hoje 23

zé onofre

              23, mataram o Natal

 

025/11/29

 

Nos tempos antigos de usar calção,

Saía a pequenada, das duas salas,

Cantando afinados na emoção,

Desafinados nas vozes engalanadas.

 

Corria pimpona a pequenada,

Saltando em fintas alegres,

“Aulas acabadas, férias começadas,

Vamos para casa comer rabanadas.”

Em dezembro pelos vinte e dois ou três,

Depois de tanto espreitar pelo nevoeiro.

Anunciava-se o quase, quase já

Do dia mais mágico dano e do mês.

Toda a pequenada abalava até casa

Pegar em cestos e carrinhos

Depois, entre mato e pinheiros,

Colhiam o melhor musgo p’r’ó presépio

 

Todos sabíamos de antiga tradição,

Vinda dos pais dos nossos avós, tão velha,

Que aquele dia era de enorme encanto

De fazer presépios nos cantos das salas.

Mesmo os olhos daqueles que viviam tristes

Nos outros dias, do ano, inteiros

Naquele dia e os olhos incendiavam-se

Como se lá dentro se acendessem candeeiros.  

Ó meus amigos de antigas pernas nuas,

Cobertas de picos e arranhões.

Hoje olhamos pelas janelas da vida

E tudo se desmorona nos tropeções.

 

É uma rua que se incendeia em novembro,

É uma cantoria vendedeira pelas ruas,

Um gordo vermelhusco sorrindo por obrigação

De voz cansada rouqueja oh … oh… oh …

Ó meus amigos, que, como eu, usavam calções,

De joelhos no chão a raspar musgo,

Mataram o nosso Natal de sonho e magia,

Sepultaram-no no féretro do vende e compra.

   Zé Onofre

 

10
Dez24

Dia de hoje 2024 - 22

zé onofre

22 – Natal de Novo

 

024/12/10

 

Mãe, conte-me algo de novo

Que se diga sobre o Natal,

Que ainda não tenha sido dito,

Ainda não tenha sido escrito,

Ainda não tenha sido cantado.

 

Mãe, conte-me algo de novo

Que se diga sobre o Natal,

Não mãe,

Logo no primeiro Natal

Os anjos cantaram

Paz aos Homens por ele amados,

Depois mudaram a letra

Para um verso mais abrangente,

Paz aos Homens de Boa Vontade,

E, ultimamente, alguém louco

Pôs na boca dos anjos

Boa Vontade aos Homens

Para fazerem a Paz.

 

Mãe, conte-me algo de novo

Que se diga sobre o Natal,

Não, essa não.

Já alguém escreveu

Sobre os salões luxuosos,

Decorados de luz e cores,

De mesas a transbordar

Das melhores iguarias,

Enquanto fora

Uma descalça,

E esfarrapada menina,

Falecia na rua gelada

À luz de uma fogueira de fósforos.

 

Mãe, conte-me algo de novo

Que se diga sobre o Natal,

Oh, essa,

Já alguém escreveu

Que uma mulher trabalhadora,

Chegada a sua hora,

Pariu sob a borda de um campo.

Aconchegada a criança,

Pegou na enxada

E, como se nada fosse,

Foi à labuta do dia a dia.

 

Mãe, conte-me algo de novo

Que se diga sobre o Natal,

Sim, mãe,

Também já alguém escreveu

Sobre a mulher

Que deu à luz numa garagem

Suja de óleo

E que num berço improvisado,

De pneus e desperdícios

À luz duns faróis,

De um automóvel a desfazer-se

Deu à luz um menino,

E a que ninguém chamou

Salvador do Mundo.

 

Mãe, conte-me algo de novo

Que se diga sobre o Natal,

Dizer isso,

Já foi tantas vezes repetido,

Que já todos sabem

Que os vendilhões do Templo

Transformaram o Natal

Num imenso megamercado Universal.

 

Mãe, conte-me algo de novo

Que se diga sobre o Natal,

Mãe, isso é de todos os anos.

Os sem abrigo coitados,

Sob as pontes,

Os portais das casas,

Nos prédios em ruínas,

Que o são todo o ano,

Mas que só no Natal,

As gentes caridosas

E os governantes hipócritas e relapsos

Se lembram que existem.

 

Mãe, conte-me algo de novo

Que se diga sobre o Natal,

Toda a gente já sabe, mãe,

Há muitos anos que foi escrito,

Dito,

Cantado,

Que o Natal

É quando um Homem quiser

E que é Natal em todo o Mundo

Sempre que nasce um menino.

 

Mãe, conte-me algo de novo

Que se diga sobre o Natal,

Ah,

Queres que diga

Que no Natal,

Que em cada Natal que está por vir

Se cumpra,

O que desde o primeiro Natal,

Ficou por cumprir?

Mãe, mas isso já não foi dito?

Está bem, mãe,

Nunca é de mais repetir.

       Zé Onofre

20
Dez23

Dias de hoje - 90

zé onofre

              90

 

023/12/20

 

No tempo em que o tempo parava

 

Naquele tempo,

Antes de este tempo

Que em tudo que toca macula

Que das mais pequenas coisas

Faz objeto de consumo,

O Natal

Não era uma data no calendário,

Uma palavra no dicionário,

Era o tempo

Do mistério e da alegria,

Do sonho e da magia.

 

Do Natal desse tempo

Não há um momento especial,

Todos os momentos eram

Por inteiro o Natal.

 

Começava no fim das aulas em dezembro,

Com a criançada desafinada,

Pela estrada até casa

A cantar entusiasmada

 

– «Aulas acabadas

Férias começadas

Vamos para casa

Comer rabanadas».

 

Continuava-se com o presépio,

Na Igreja e em casa,

Na cozinha à volta da mãe

A provar as lambarices.

 

A noite de vinte e quatro

Com o bacalhau e a doçaria

(Com filhós e bolos de abóbora

rabanadas e aletria).

No Largo da Igreja

Com brincadeiras mil

Até à missa do Galo,

Com o “nosso” presépio a presidir.

 

Ao outro dia a festa continuava.

Ensaiar as janeiras. Canto tradicional,

Já não à avó, mas que continuava

Ao tio mais velho da Casa do Espinhal.

  

Era uma semana cheia de alegria,

O pai e os filhos, vê-los era um regalo.

E como sempre o pai contava

“uma vez deram um arroz de galo”,

E logo de seguida, com ar maroto,

“Não, galo de arroz”, emendava.

  

 Acabava o Natal,

No primeiro dia de janeiro,

Alta madrugada

Já o galo cantava no poleiro.

 

Votaria daí a uma eternidade,

(Caído logo no esquecimento)

No último dia de aulas

Do próximo dezembro.

  Zé Onofre

24
Out23

Notas à margem - Dia de hoje 87

zé onofre

                   87

 

023/10/24

 

Mais uma vez seguiremos

A tradição.

Como em todos os outros anos

Celebraremos o Natal.

 

Que Natal, celebraremos?

 

O Natal de uma rua escura,

Gelada e coberta de Neve

Apenas iluminada pela fresta de uma vidraça,

Por onde se espreita uma mesa de excessos,

Colorida com mil luzes,

E uma fogueira acesa.

Enquanto,

Do lado de cá da vidraça,

Uma menina morre

Aquecida por uma fogueira de fósforos.

 

Que Natal, celebraremos?

 

O natal das ruas arco-íris,

Das montras coloridas,

A convidar ao consumo de inutilidades.

Onde a felicidade vem embrulhada

Em papéis coloridos,

Decorados com fitas e fitinhas,

Laços, lacinhos e laçarotes.

Felicidade que ao outro dia despejaremos,

Nos contentores onde se despeja

O lixo selecionado.

 

Quando é que celebraremos o Natal

De uma humanidade nascida

Para a Igualdade,

Para a Fraternidade,

Para a Liberdade?

   Zé Onofre

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