Dia de hoje - 26

AQUI NÃO!
Zé Onofre
Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

AQUI NÃO!
Zé Onofre
25
025/12/17
Estamos em dezembro.
Diz-me o cinzento dos dias,
A poalha húmida do ar,
Os dias curtos ao entardecer,
E, se mais não fora,
Dir-mo-ia o frio calendário do tempo por medida.
Apesar de ser um dezembro igual
A tantos outros passados,
Passo por este dezembro,
Como se já tivesse passado,
Encontro-me perdido num tempo incerto.
Há acontecimentos acontecidos,
Que parece que ainda estão por acontecer,
Há datas por vir
Que parecem já ter ido
Em velocidade louca para fora do tempo.
Tenho que me chamar à razão,
Fazer um enorme esforço mental
E convencer-me que não,
Ainda não foi Natal,
Contudo tenho a sensação
Que o Natal deste ano já tenha sido
Ou que por alguma gruta dourada
Anda perdido.
Zé Onofre
23, mataram o Natal
025/11/29
Nos tempos antigos de usar calção,
Saía a pequenada, das duas salas,
Cantando afinados na emoção,
Desafinados nas vozes engalanadas.
Corria pimpona a pequenada,
Saltando em fintas alegres,
“Aulas acabadas, férias começadas,
Vamos para casa comer rabanadas.”
Em dezembro pelos vinte e dois ou três,
Depois de tanto espreitar pelo nevoeiro.
Anunciava-se o quase, quase já
Do dia mais mágico dano e do mês.
Toda a pequenada abalava até casa
Pegar em cestos e carrinhos
Depois, entre mato e pinheiros,
Colhiam o melhor musgo p’r’ó presépio
Todos sabíamos de antiga tradição,
Vinda dos pais dos nossos avós, tão velha,
Que aquele dia era de enorme encanto
De fazer presépios nos cantos das salas.
Mesmo os olhos daqueles que viviam tristes
Nos outros dias, do ano, inteiros
Naquele dia e os olhos incendiavam-se
Como se lá dentro se acendessem candeeiros.
Ó meus amigos de antigas pernas nuas,
Cobertas de picos e arranhões.
Hoje olhamos pelas janelas da vida
E tudo se desmorona nos tropeções.
É uma rua que se incendeia em novembro,
É uma cantoria vendedeira pelas ruas,
Um gordo vermelhusco sorrindo por obrigação
De voz cansada rouqueja oh … oh… oh …
Ó meus amigos, que, como eu, usavam calções,
De joelhos no chão a raspar musgo,
Mataram o nosso Natal de sonho e magia,
Sepultaram-no no féretro do vende e compra.
Zé Onofre
22 – Natal de Novo
024/12/10
Mãe, conte-me algo de novo
Que se diga sobre o Natal,
Que ainda não tenha sido dito,
Ainda não tenha sido escrito,
Ainda não tenha sido cantado.
Mãe, conte-me algo de novo
Que se diga sobre o Natal,
Não mãe,
Logo no primeiro Natal
Os anjos cantaram
Paz aos Homens por ele amados,
Depois mudaram a letra
Para um verso mais abrangente,
Paz aos Homens de Boa Vontade,
E, ultimamente, alguém louco
Pôs na boca dos anjos
Boa Vontade aos Homens
Para fazerem a Paz.
Mãe, conte-me algo de novo
Que se diga sobre o Natal,
Não, essa não.
Já alguém escreveu
Sobre os salões luxuosos,
Decorados de luz e cores,
De mesas a transbordar
Das melhores iguarias,
Enquanto fora
Uma descalça,
E esfarrapada menina,
Falecia na rua gelada
À luz de uma fogueira de fósforos.
Mãe, conte-me algo de novo
Que se diga sobre o Natal,
Oh, essa,
Já alguém escreveu
Que uma mulher trabalhadora,
Chegada a sua hora,
Pariu sob a borda de um campo.
Aconchegada a criança,
Pegou na enxada
E, como se nada fosse,
Foi à labuta do dia a dia.
Mãe, conte-me algo de novo
Que se diga sobre o Natal,
Sim, mãe,
Também já alguém escreveu
Sobre a mulher
Que deu à luz numa garagem
Suja de óleo
E que num berço improvisado,
De pneus e desperdícios
À luz duns faróis,
De um automóvel a desfazer-se
Deu à luz um menino,
E a que ninguém chamou
Salvador do Mundo.
Mãe, conte-me algo de novo
Que se diga sobre o Natal,
Dizer isso,
Já foi tantas vezes repetido,
Que já todos sabem
Que os vendilhões do Templo
Transformaram o Natal
Num imenso megamercado Universal.
Mãe, conte-me algo de novo
Que se diga sobre o Natal,
Mãe, isso é de todos os anos.
Os sem abrigo coitados,
Sob as pontes,
Os portais das casas,
Nos prédios em ruínas,
Que o são todo o ano,
Mas que só no Natal,
As gentes caridosas
E os governantes hipócritas e relapsos
Se lembram que existem.
Mãe, conte-me algo de novo
Que se diga sobre o Natal,
Toda a gente já sabe, mãe,
Há muitos anos que foi escrito,
Dito,
Cantado,
Que o Natal
É quando um Homem quiser
E que é Natal em todo o Mundo
Sempre que nasce um menino.
Mãe, conte-me algo de novo
Que se diga sobre o Natal,
Ah,
Queres que diga
Que no Natal,
Que em cada Natal que está por vir
Se cumpra,
O que desde o primeiro Natal,
Ficou por cumprir?
Mãe, mas isso já não foi dito?
Está bem, mãe,
Nunca é de mais repetir.
Zé Onofre
21- Presépio
2024/12/05

Zé Onofre
90
023/12/20
No tempo em que o tempo parava
Naquele tempo,
Antes de este tempo
Que em tudo que toca macula
Que das mais pequenas coisas
Faz objeto de consumo,
O Natal
Não era uma data no calendário,
Uma palavra no dicionário,
Era o tempo
Do mistério e da alegria,
Do sonho e da magia.
Do Natal desse tempo
Não há um momento especial,
Todos os momentos eram
Por inteiro o Natal.
Começava no fim das aulas em dezembro,
Com a criançada desafinada,
Pela estrada até casa
A cantar entusiasmada
– «Aulas acabadas
Férias começadas
Vamos para casa
Comer rabanadas».
Continuava-se com o presépio,
Na Igreja e em casa,
Na cozinha à volta da mãe
A provar as lambarices.
A noite de vinte e quatro
Com o bacalhau e a doçaria
(Com filhós e bolos de abóbora
rabanadas e aletria).
No Largo da Igreja
Com brincadeiras mil
Até à missa do Galo,
Com o “nosso” presépio a presidir.
Ao outro dia a festa continuava.
Ensaiar as janeiras. Canto tradicional,
Já não à avó, mas que continuava
Ao tio mais velho da Casa do Espinhal.
Era uma semana cheia de alegria,
O pai e os filhos, vê-los era um regalo.
E como sempre o pai contava
“uma vez deram um arroz de galo”,
E logo de seguida, com ar maroto,
“Não, galo de arroz”, emendava.
Acabava o Natal,
No primeiro dia de janeiro,
Alta madrugada
Já o galo cantava no poleiro.
Votaria daí a uma eternidade,
(Caído logo no esquecimento)
No último dia de aulas
Do próximo dezembro.
Zé Onofre
87
023/10/24
Mais uma vez seguiremos
A tradição.
Como em todos os outros anos
Celebraremos o Natal.
Que Natal, celebraremos?
O Natal de uma rua escura,
Gelada e coberta de Neve
Apenas iluminada pela fresta de uma vidraça,
Por onde se espreita uma mesa de excessos,
Colorida com mil luzes,
E uma fogueira acesa.
Enquanto,
Do lado de cá da vidraça,
Uma menina morre
Aquecida por uma fogueira de fósforos.
Que Natal, celebraremos?
O natal das ruas arco-íris,
Das montras coloridas,
A convidar ao consumo de inutilidades.
Onde a felicidade vem embrulhada
Em papéis coloridos,
Decorados com fitas e fitinhas,
Laços, lacinhos e laçarotes.
Felicidade que ao outro dia despejaremos,
Nos contentores onde se despeja
O lixo selecionado.
Quando é que celebraremos o Natal
De uma humanidade nascida
Para a Igualdade,
Para a Fraternidade,
Para a Liberdade?
Zé Onofre
46 seguidores
A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.