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Notas à Margem

Notas à Margem

23
Jan24

Dia de hoje - 95

zé onofre

 

95

 

024/01/23

 

Nenhuma noite é tão longa,

Que não haja uma aurora

Para a acordar.

 

Nenhuma escuridão é tão densa’

Que não haja um pirilampo

Que lhe dê dimensão.

 

Nenhuma pedra é tão dura,

Que não haja água mole

Que a fure.

 

Nenhuma pedra é tão agreste,

Que não esconda um cristal

Que o torne suave.

 

Nenhuma encosta é tão íngreme,

Que não tenha um palmo plano

Que lhe desminta a inclinação

 

Nenhuma penedia é tão lisa e vertical

Que não tenha uma raiz

Onde nos ajude a subir.

 

Nenhum rio é tão fundo,

Que não tenha um penedo

Que permita pôr o nariz de fora.

 

Nada é tão eternamente eterno,

Que não tenha um calcanhar de Aquiles

Que lhe abrevie o tempo.

 

Haverá alguma coisa neste mundo,

Que não transporte em si

A sua contradição?

 

Camões – todo o mundo é composto de mudança,

Mas que mesmo essa mudança

Mudava no seu mudar.

  Zé Onofre

12
Set23

Histórias de A a Z para aprender a ler e escrever - Livro III - Uma estrela caiu

zé onofre

UMA ESTRELA CAIU  2004.11.30  

 

Dizem

Que no fundo

Mais fundo

Da poça grande

Um dia caiu

Uma estrela brilhante.

 

Dizem

Que no escuro

Mais escuro

Da noite mais escura

A estrela que caiu

No fundo

Mais fundo

Da poça grande

Lá no fundo

Brilha

Como um diamante

 

E o Zé

Cansado de sonhar

Com a estrela

Que caiu

No fundo

Mais fundo

Da poça grande

Corre descalço

No escuro da noite

Para ver

A estrela brilhante

Que caiu

No fundo

Mais fundo

Da poça grande

 

Mas,

Mais brilhantes

Que a estrela

Que caiu

No fundo

Mais fundo

Da poça grande

São os olhos

Do Zé

Quando viram

A estrela brilhante

Que caiu

No fundo

Mais fundo

Da poça grande

     Zé Onofre

 

03
Set23

Notas à margem - Dia de hoje 93

zé onofre

               93 – Natal

 

023/09/03

 

Este ano,

O meu desejo de Natal,

É que não haja Natal

Por desnecessário e anacrónico.

 

Porque desde sempre

Apenas o sol iluminava os dias

E que a noite

Apenas conhecia a lua e as estrelas.

 

Porque o solo

Apenas tinha memória

De ser rasgado pelos ferros do arado,

Apenas fora pisado por tratores,

E nunca sentira o peso de botas cardadas,

Nem de máquinas de lagartas.

 

As cidades apenas sabiam

De edifícios que eram lares

E não construções de paredes esventradas.

 

Os verdes e floridos jardins

Tinham apenas a lembrança

Das alegrias, tristezas, brincadeiras e brigas das crianças,

Do arrulhar e arrufos de namorados,

Do silêncio/memória dos reformados.

 

Nos bosques apenas havia vestígios

Do desenvolvimento harmonioso da vida selvagem,

Ao som do vento e da chuva,

Da brancura da neve e das geadas,

Dos temporais e das bonanças,

De homens, mulheres e crianças

Em alegres passeios e piqueniques.

 

Os rios e os lagos desde há muito

Eram o habitat da vida aquática,

A serenidade das suas águas

Apenas eram cortadas por árvores que tombavam,

Pelo remar de pequenos barcos,

Onde felizes humanos

Conversavam e cantavam a vida.

Havia também o registo de corpos,

Mais ou menos elegantes

Que nas suas águas procuravam prazer.

 

Os mares, desde tempos imemoriais,

Apenas eram navegados por cruzeiros,

Navios cargueiros,

Respeitados pelos humanos

Que nunca dele fizeram o seu caixote do lixo,

Quanto mais estrada de máquinas de morte.

 

Os ares, apenas sabiam,

Que eram o lar das nuvens e das aves,

A fonte dos relâmpagos e dos trovões,

Caminho de aviões que os cruzavam

Com intenções de negócios,

Ou como mensageiros de tristezas e alegrias,

Ou apenas destino de descanso e recreio.

Os ares nunca souberam que poderiam ser voados,

Por máquinas furiosas que desovavam,

Inclementes, ovos de morte sobre a superfície.

 

As ruas, praças e avenidas,

Desde tempos antigos

Sentem passos de pessoas,

Sem pressas nem correrias,

Que apenas viviam a vida

Com alegrias, choros, tristezas e gargalhadas,

A olharem o longe sem medo

Que do nada surgisse a morte.

O seu único receio era que um  pássaro passageiro

Largasse sobre elas um dejeto ligeiro.

 

Dos campos, das minas, das fábricas e dos mares

Apenas se fabricava e extraía o necessário.

Não se produzia para o excesso,

Nem para acumular riqueza,

E produzir pobres.

 

Este ano,

O meu desejo de Natal,

É que não haja Natal

Por desnecessário e anacrónico.

   Zé Onofre

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