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Notas à Margem

Notas à Margem

29
Nov25

Dias de hoje 23

zé onofre

              23, mataram o Natal

 

025/11/29

 

Nos tempos antigos de usar calção,

Saía a pequenada, das duas salas,

Cantando afinados na emoção,

Desafinados nas vozes engalanadas.

 

Corria pimpona a pequenada,

Saltando em fintas alegres,

“Aulas acabadas, férias começadas,

Vamos para casa comer rabanadas.”

Em dezembro pelos vinte e dois ou três,

Depois de tanto espreitar pelo nevoeiro.

Anunciava-se o quase, quase já

Do dia mais mágico dano e do mês.

Toda a pequenada abalava até casa

Pegar em cestos e carrinhos

Depois, entre mato e pinheiros,

Colhiam o melhor musgo p’r’ó presépio

 

Todos sabíamos de antiga tradição,

Vinda dos pais dos nossos avós, tão velha,

Que aquele dia era de enorme encanto

De fazer presépios nos cantos das salas.

Mesmo os olhos daqueles que viviam tristes

Nos outros dias, do ano, inteiros

Naquele dia e os olhos incendiavam-se

Como se lá dentro se acendessem candeeiros.  

Ó meus amigos de antigas pernas nuas,

Cobertas de picos e arranhões.

Hoje olhamos pelas janelas da vida

E tudo se desmorona nos tropeções.

 

É uma rua que se incendeia em novembro,

É uma cantoria vendedeira pelas ruas,

Um gordo vermelhusco sorrindo por obrigação

De voz cansada rouqueja oh … oh… oh …

Ó meus amigos, que, como eu, usavam calções,

De joelhos no chão a raspar musgo,

Mataram o nosso Natal de sonho e magia,

Sepultaram-no no féretro do vende e compra.

   Zé Onofre

 

20
Dez23

Dias de hoje - 90

zé onofre

              90

 

023/12/20

 

No tempo em que o tempo parava

 

Naquele tempo,

Antes de este tempo

Que em tudo que toca macula

Que das mais pequenas coisas

Faz objeto de consumo,

O Natal

Não era uma data no calendário,

Uma palavra no dicionário,

Era o tempo

Do mistério e da alegria,

Do sonho e da magia.

 

Do Natal desse tempo

Não há um momento especial,

Todos os momentos eram

Por inteiro o Natal.

 

Começava no fim das aulas em dezembro,

Com a criançada desafinada,

Pela estrada até casa

A cantar entusiasmada

 

– «Aulas acabadas

Férias começadas

Vamos para casa

Comer rabanadas».

 

Continuava-se com o presépio,

Na Igreja e em casa,

Na cozinha à volta da mãe

A provar as lambarices.

 

A noite de vinte e quatro

Com o bacalhau e a doçaria

(Com filhós e bolos de abóbora

rabanadas e aletria).

No Largo da Igreja

Com brincadeiras mil

Até à missa do Galo,

Com o “nosso” presépio a presidir.

 

Ao outro dia a festa continuava.

Ensaiar as janeiras. Canto tradicional,

Já não à avó, mas que continuava

Ao tio mais velho da Casa do Espinhal.

  

Era uma semana cheia de alegria,

O pai e os filhos, vê-los era um regalo.

E como sempre o pai contava

“uma vez deram um arroz de galo”,

E logo de seguida, com ar maroto,

“Não, galo de arroz”, emendava.

  

 Acabava o Natal,

No primeiro dia de janeiro,

Alta madrugada

Já o galo cantava no poleiro.

 

Votaria daí a uma eternidade,

(Caído logo no esquecimento)

No último dia de aulas

Do próximo dezembro.

  Zé Onofre

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